sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Poder dos Watts.

O Poder dos Watts

Os medidores de potência oferecem ao ciclista uma maneira mais fácil de encontrar e manter a intensidade apropriada para cada tipo de treino.
Há cerca de 20 anos, o cardio frequencímetro revolucionou a rotina de treino dos ciclistas. Nessa mesma época, engatinhava o uso de um outro equipamento, o medidor de potência - aparelho fixado à bicicleta que indica a potência(força x velocidade) gerada pelo ciclista -, porém sem o impacto que o treino baseado no batimento cardíaco obteve. 
Usado até então apenas por atletas profissionais, há menos de cinco anos o medidor de potência vem ganhando adeptos entre os amadores dedicados, que descobriram nesse dispositivo uma forma de mudar os métodos de treinamento e aprimorar a gestão do esforço.
O princípio básico dos medidores de potência se dá calculando a deformação de uma peça elástica e convertendo esse valor em watts. Em outras palavras, o aparelho mede a força aplicada ao pedal multiplicada pela cadência de pedalagem, indicando a potência instantânea que o ciclista está produzindo. Com isso, é possível elevar a potência do ciclista de duas maneiras: aumentando a força do pedal ou elevando a cadência. Por meio dos dados recebidos no monitor, o atleta ou o técnico saberá quando uma sobrecarga está ou não sendo atingida, evitando que o ciclista faça um esforço desnecessário e dose melhor sua energia. Ao fazer isso, o atleta pode até rever a sua postura sobre a bicicleta, adotando outra que lhe permita render melhor, de acordo com James Herrera, técnico principal da Carmichel Training Systems(CTS), centro de treinamento americano onde treinam alguns dos principais ciclistas do mundo. Segundo Herrera, todos os atletas de elite do CTS treinam com o medidor de potência - estima-se que 80% dos profissionais se beneficiam da ferramenta.
Cardiofrequencímetro ou Medidor de Potência?

Quando os primeiros medidores de potência foram usados, na década de 1980, ficou evidente que o treino por meio da frequência cardíaca(FC) não era tão preciso para definir as zonas de treino. 
"Medir a potência dá ao atleta o quado exato de seu treino, não importando as condições climáticas ou do terreno", explica Dezn Glich, preparador físico e técnico dos campeões mundias de moutain bike Alison Dunlap e Roland Green.
Isso porque, em um treinamento cuja referência é a frequência cardíaca, fatores como clima, terreno estado emocional e até mesmo ciclo menstrual interferem nos dados fornecidos pelo monitor. "Quando pedala, imediatamente o ciclista já sabe a força que está produzindo, ao contrário da FC, que demora a indicar o esforço correspondente devido ao déficit de oxigênio", diz Hugo Pradoneto, ciclista profissional e técnico da Carmichael Training Systems.
Se um ciclista vai fazer três tiros de três minutos na faixa de 350 watts e 500 watts, ele terá de produzir essa potência com vento, na subida ou com temperatura bem elevada. "Ele vai poder fazer seu treino seguindo os parâmetros exatamente como foram prescritos", diz Pradoneto. Por outro lado, se tivesse de repetir a mesma séria seguindo o parâmetro de FC, o atleta teria alguns problemas pela frente: em dias muito quentes, seu batimento cardíaco se elevaria mais rápido, portanto, sua potência seria menor que a FC a ele prescrita. Ele estaria fazendo o treino com menor qualidade.
Isso também aconteceria se esse ciclista tivesse treinado sob sol muito forte no dia anterior e ainda estivesse um pouco desidratado. "O batimento cardíaco também se elevaria acima do normal, comprometendo a qualidade do treino novamente".
Ainda existe o fato de haver uma defasagem de tempo entre a medição da frequência cardíaca e a resposta dos esforços do atleta, isto é, o que a FC indica pode não corresponder ao esforço do organismo naquele exato momento, segundo o técnico James Herrera.
Apesar de tanto o cardio frequencímetro como o medidor de potência terem sido desenvolvidos aproximadamente na mesma época, indubitavelmente foi a mensuração das batidas cardíacas - cujo custo-benefício é eficiente - que revolucionou o treinamento não só de ciclistas mas de atletas de outros esportes.
E por que a avaliação a partir dos watts produzidos só agora passa a ganhar força entre os atletas, se é mais precisa do que a medição dos batimentos cardíacos? Mesmo sendo o estandarte de ouro entre os ciclistas atualmente, tem seus inconvenientes: é caro, pesado e de difícil interpretação. "Uma das minhas maiores dificuldades foi aprender a usar o aparelho e a analisar seus dados".
Enquanto alguns técnicos são entusiastas do preparo de seus atletas baseado em medição de potência, outras não descartam a boa e velha medição da frequência cardíaca. "Acredito que essa ferramenta veio para somar, e não para substituir tudo o que já conhecemos. Ambos devem ser usados", afirma o fisiologista e preparador físico José Rubens D'Elia.
Pulo do Gato

Treinar com medidores de potência é usar uma ferramenta que se aperfeiçoa a cada modelo colocado no mercado. Durante anos esses aparelhos só foram usados por atletas de altíssimo nível em treinamentos realizados em ambiente laboratorial, O pulo do gato veio quando cientistas conseguiram levar a campo os testes indoor - isso significou reduzir suas medidas e torná-los acopláveis a qualquer bicicleta.
Pai dos medidores, o SRM (Schoberer Rad Messtechnik) foi desenvolvido em 1986 pelo engenheiro Ulrick Schoberer, um dos responsáveis por adaptar o aparelho para medir a potência do ciclista em condições reais - entre seus usuários estão os alemães Jan Ulrich e Erik Zabel e o italiano Paolo Bettini.
Um dos mais caros - a versão amadora custa cerca de US$ 2.100, o SRM mede a potência pela pedivela (específica da marca), que transmite a informação da força aplicada aos pedais a um minicomputador instalado no guidão, cujo visor se assemelha a um ciclo computador convencional.
Outra marca que desponta é o Powertap, da Cycleops. Em 1973, os irmãos Graber abriram uma empresa que começou com a fabricação dos rack de bicicletas. Entre idas e vindas, compras e vendas, em 2001 a empresa entrou no ramo dos medidores de potência. Seu aparelho é o único que não requer troca de bateria, mas exige que a roda traseira seja montada com um cubo específico da Powertap. Se a roda não for compatível, existe a possibilidade de adquirir uma com o cuja já instalado.
Foi lançado durante o mais importante salão de ciclismo do mundo - o Eurobike, realizado nos dias 1º e 4 de setembro, em Friedrichshafen(Alemanha) - o medidor de potência da empresa alemã Ergomo Sport (www.ergomo.net), que pesa 290 g e 540 g (nas versões Pro e Spin, respectivamente) e é instalado na caixa de centro. Possui margem de erro de 1,5% e custa 1.300 Euros.
Qualquer atleta que queira saber exatamente quando, como e onde aplica sua força está apto a usar o medidor - principalmente quem se sentir cansado constantemente com o mesmo treino, sinal de que a força está sendo mal aplicada. "É mais comumente usado por profissionais, uma vez que eles vivem de sua performance. Mas os amadores são bem-vindos, desde que tenham disponibilidade financeira", diz Golich.
O medidor de potência, para Hugo Pradoneto, facilita e timiza a preparação do atleta, por se mais acurado que treinamentos baseados na frequência cardíaca. "Amadores geralmente são atletas que dividem seu treino e competição com vários outros afazeres da vida. Talvez seja até mais importante para eles terem o medidor de potência, para que sua preparação seja feita com a melhor qualidade possível. Se for profissional, o medidor pode ser uma ótima ferramenta par que o atleta tenha uma vantagem sobre os outros ciclistas que ainda treinam baseando-se em FC."
Obsessão

Assim como acontece com qualquer outra ferramenta de treinamento, ficar obcecado com números e dados traz um aspecto negativo principalmente à mente do atleta. "Comecei a usar o medidor de potência há menos de um mês e estou maluco com isso. Fico condicionado a olhar para o aparelho a todo momento e checar como está meu rendimento.
Essa obsessão é uma das principais críticas não só aos medidores de potência mas também a outros gadgets desportivos, como medidores de frequência cardíaca. GPS e toda a parafernália eletrônica ao alcance do atleta. "Não dá para treinar e se guiar só pelo uso desses apetrechos. Você só melhora se treina com pessoas mais fortes que você. Só o treino muito científico limita o potencial do atleta", diz o empresário e ciclista amador Fernando Luiz Nabuco de Abreu, 61 anos. Para o técnico Dean Golich, "a polêmica é irrelevante, pois o aparelho dá informações valiosas ao ciclista".
Só para treinar?

É possível medir a carga produzida durante treinos e provas. O mais apropriado, entretanto, é lançar mão do aparelho apenas nos treinamentos, devido ao peso adicionado à bicicleta - que pode passar de 500 g.
Analisando os dados após o treino, verificam-se exatamente os ponto nos quais existe necessidade de aplicar uma potência maior, permitindo comparar cargas e esforços específicos em determinado trecho do percurso - os dados possibilitam indicar se o ciclista aperfeiçoou seu giro desde o último treino, mas usando o mesmo esforço.
"Foi o caso da maioria dos moutain bikers que participaram da Olimpíadas de Atenas".
Antes das provas, técnicos e atletas percorriam as pistas medindo a potência requerida. "Com informações a respeito do percurso, sabia-se com precisão a potência e os tipos de intervalo e sistemas de energia que teriam de ser concentrados nos treinos. Isso é impossível nos treinos baseados na FC."
Vale lembrar que os medidores de potência também avaliam cadência(rpm), velocidade, temperatura e distância, além da relação de cada um desses parâmetros com a potência. Um atleta que está treinando contra-relógio faz três tiros de dez minutos com cinco minutos de descanso.
Segundo Pradoneto, é possível - em um arquivo de computador - comparar graficamente a relação potência versus cadência. Se a cadência está muito baixa e a marcha muito pesada, o atleta pode fazer o próximo treino de três vezes por dez minutos com uma cadência mais elevada, para aumentar a potência. "Isso nos ajuda a descobrir, por exemplo, a cadência ideal para cada atleta." E ainda o técnico pode analisar esses dados à distância - basta fazer um download do treino e enviá-lo por e-mail.
Artigo publicado na Revista VO2Max, Nr 01, de Outubro de 2005.

M.M.

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