domingo, 24 de abril de 2016

A potência no treino do Ciclista.

Acompanhando o crescimento tecnológico exponencial que se tem verificado na modalidade, verificamos que, a grande maioria dos ciclistas, quer profissionais, quer amadores, já não dispensa o recurso ao treino com potência para guiar e controlar todo o processo de treino.
Sendo evidente que existem inúmeras vantagens em treinar com o recurso à força instantânea da pedalada, será que estamos por dentro de tudo o que envolve esta tecnologia e do quanto a mesma pode ser crucial para o crescimento físico dos atletas?
É partindo deste pressuposto/duvida colocada e discutida usualmente entre praticantes, que irei abordar a importância do treino com potência.
biomechanics
Tecnologia
Hoje, encontramos variadíssimos sistemas capazes de medir a potencia instantânea ao pedalar.
Entre todos, verificamos que existem sistemas que analisam a força no próprio pedaleiro, nos pedais ou através de um cubo traseiro.
Com o aparecimento de novos potenciómetros, a tendência é a fiabilidade crescer, quer dos equipamentos atuais, quer dos que surgem, proporcionando meios de medição cada vez mais rigorosos.
Porém, e como ainda existem poucos estudos sobre alguns dos modelos mais recentes, convém termos alguma precaução na escolha dos mesmos, enquanto não é conhecida a validade e fidedignidade dos valores mensurados pelos respectivos potenciómetros.
display_power_meter_cranksO problema que advém de um potenciómetro apresentar uma margem de erro relativamente significativa na leitura dos valores de potencia, é que pode induzir completamente em erro o atleta e com isso, levar o mesmo a treinar completamente fora dos ritmos de treino pré-estabelecidos.
Passando à prática, os potenciómetros podem apresentar uma variação na leitura da potencia na ordem dos 1 a 6-8%. Significa que, os modelos mais precisos, mesmo quando estamos a trabalhar com valores de potencia mais elevados (400 watts ou mais) em séries, conseguimos um rigor no treino bastante alto.
Se considerarmos uma margem de erro de 2%, para uma série em que o alvo sejam os 400 watts, a variação máxima de potência que pode ocorrer variará entre os 392 e os 408 watts, o que será pouco significativo.
Contudo, e à medida que o erro de leitura da potência aumenta, e passando logo para o caso dos rolos de treino, um erro de leitura na ordem dos 15 a 20%, traduzirá uma margem que oscilará entre os 320 e os 480 watts (considerando o exemplo anterior dos 400 watts), sendo um caso completamente descontextualizado e até contra indicado para trabalhar fiavelmente com potencia – isto porque o ciclista estará facilmente  fora das zonas de treino, sem poder ter controlo sobre isso.

O treino
O treino é um processo bastante complexo, exigente e abrangente, que depende de inúmeras variáveis para que o conjunto do encadeamento de todas as sessões surta efeito desejado.
No final, tudo será o resultado da quantidade de trabalho que conseguimos produzir através da resposta mecânica do nosso corpo.
Potência = Força da pedalada X Cadência
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A frequência cardíaca e a nossa percepção do esforço (escala de Borg) são a melhor forma de medir a resposta do corpo ao treino.
Enquanto que a potência é o meio de quantificar a carga e intensidade do treino.
Os sistemas de treino não nos permitem saber a real resposta do corpo ao processo de treino.
A efetividade real de carga de treino que executamos permanece ainda um mistério, ou quanto muito conseguimos ter uma estimativa, pois na maior parte das vezes não é viável avaliar o atleta por diversas vezes no tempo como seria desejável.
Por outras palavras, não é na realidade passível de saber com detalhe o impacto que um treino tem para o atleta.
Quer seja a sessão de um nível de intensidade baixo ou extremamente elevado. Isto porque, apesar de termos inúmeros meios de controlo do treino, quando passamos para a prática, a intensidade “X” terá um efeito no atleta possivelmente diferente quando aplicado umas semanas ou meses mais tarde.
Isto porque, dependendo do estado de prontidão do organismo do atleta, este estará mais receptivo a conseguir executar o referido exercício, e consequentemente, terá melhor capacidade para assimilar o mesmo.
Outras causas para a não efetividade da intensidade “X”, que condicionarão a assimilação da carga de treino:
  • o atleta pode estar cansado;
  • pode estar mal hidratado;
  • mal nutrido;
  • ter uma noite mal dormida;
  • stress emocional (a nível pessoal, íntimo, trabalho)
Contudo, esta situação não é definitivamente crucial para a evolução do atleta, visto que, ao medirmos no treino a força/potência com que treinamos, será de todo o mais importante, pois conseguimos saber com detalhe com que intensidade estamos a treinar, contribuindo isso diretamente para que o treino se torne desde logo mais eficaz, independentemente de todos os factores externos à carga.
 Isto porque, o impacto do treino, através de diferentes níveis de intensidade previamente estabelecidos em avaliações específicas, será constante e obedecerá a uma dinâmica que se repetirá no tempo, para que, o conjunto de todos esses estímulos resultem no final, na evolução do sujeito na “direção” pretendia.
Estas constatações contrariam naturalmente o controlo do treino pela frequência cardíaca pois, durante a execução do treino, no “timming” preciso em que iniciamos e realizamos cada série de treino, a potência indica-nos logo a força que estamos a executar, enquanto que, a resposta do corpo ao esforço (frequência cardíaca e percepção de esforço), só a temos à posteriori, ou seja, algum tempo após o impacto da carga de treino no organismo.
Mesmo assim, muitas vezes essa informação de resposta ao esforço, pode ser influenciada por inúmeros factores que condicionam em parte a veracidade dessas informações.
Logo, estes valores acabam por ser mais interessantes numa perspectiva de análise para o treinador que, devidamente credenciado e formado, tem as ferramentas necessárias para o estudar e, como já foi referido, estimar o impacto desse treino no atleta.
Treinar com potencia regularmente ajuda a:
  • analisar com precisão até as mais pequenas evoluções
  • quantificar a intensidade, duração e frequência das sessões de treino
  • medir com exatidão a energia despendida em cada sessão
  • treinar com rigor em cada série realizada

Nota final
Mais importante que treinar com potência, é ter bem estabelecidos os ritmos com que devemos treinar, e averiguar a evolução dos mesmos ao longo da época através de uma rigorosa bateria de testes.
Além disso, devemos ter em conta o potenciómetro com que o atleta treina, assegurando que o mesmo fornece o rigor e precisão que procuramos para assegurar a qualidade pretendida para o treino.
Por fim, realço que, potenciómetro deve ser corretamente utilizado, o que pressupõe que o treino seja coerentemente prescrito em função da evolução do atleta e assegurando a saúde do mesmo.
Esta chamada de atenção tem a ver com a ambição inerente ao recurso a esta ferramenta de treino, pois a tentativa de elevar os valores de potência em séries, médias, etc, pode de todo condenar a progressão física do sujeito.
Hoje, verificam-se inúmeros casos em que os próprios atletas consideram ter atingido um tecto de evolução que normalmente não corresponde à realidade, mas sim, condição imposta pelo comodismo no treino “fácil”.

Tiago Aragão
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MM

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